sábado, 1 de maio de 2010

CENOGRAFIA ALHEAMENTO






Concepção Cênica - Raphael Vianna
Layout e desenhos - Flávio Andrade  

sexta-feira, 30 de abril de 2010



Estrutura da Encenação por Raphael Vianna.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O Livro do Desassossego por Bernardo Soares.




Quero que a leitura deste livro vos deixe a impressão de terdes atravessado um pesadelo voluptuoso.

……

A melhor maneira de começar a sonhar é mediante livros. Os romances servem de muito para o principiante. Aprender a entregar-se totalmente à leitura, a viver absolutamente com as personagens de um romance - eis o 1º passo. Que a n[ossa] família e as suas imagens nos pareçam chilras e ingratas ao lado dessas, eis o sinal do progresso.

É preciso evitar o ler romances literários onde a atenção seja desviada para a forma do romance. (...) Não tenho vergonha em confessar que assim comecei. É curioso mas os romances policiais, os (...) [...].

Nunca pude ler romances amorosos detidamente. Mas isto é uma questão pessoal, por não ter feitio de amoroso, nem mesmo em sonhos. Cada qual cultive, porém, o feitio que tiver. Reconheceremos sempre de que sonhar é procurarmo-nos. O sensual deverá, para suas leituras, escolher as opostas às que forem minhas.

Quando a sensação física chegar, pode dizer-se que o sonhador passou além do 1º grau do sonho. Isto é, q[uando] um romance sobre combates, fugas, batalhas, nos deixa o corpo realmente moído, as pernas cansadas... o 1º grau está conseguido. No caso do sensual, deverá ele - sem receber a mensagem mais que mental[mente] - ter uma ejaculação q[uan]do um momento desses chegar no romance.

Depois procurará traduzir tudo isso para mental. A ejaculação, no caso do sensual (que escolho para exemplo, porque é o mais violento e frisante) deverá ser sentida sem se ter dado. O cansaço será m[ui]to maior, mas o prazer é completamente mais intenso.

No 3º grau passa toda a sensação a ser mental. Custa o prazer e custa o cansaço, mas o corpo já nada sente, e em vez dos membros lassos, a inteligência, a vontade [?], ou a emoção é que ficam bambas-frouxas... Quando aqui é tempo de passar para o grau supremo do sonho.

O supremo grau é o construir romances para si próprio. Só deve tentar-se isto q[uan]do se está perfeitamente mentalizado o sonho, como antes disse. Se não, o esforço inicial em criar os romances, perturbará a perfeita mentalização do gozo.

[…]

O mais alto grau do sonho é q[uan]do criado um quadro com personagens, vivemos todas elas ao mesmo tempo - somos todas essas almas conjunta e interactívamente.

É visível o grau de despersonalização e de encinzamento[?] do espírito a que isto leva, e é difícil confesso, fugir a um cansaço geral de todo o ser ao fazê-lo... Mas o triunfo é tal!



1914?

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A obra

LIVRO DO DESASSOSSEGO



               “A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamos-nos, como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos...”

                                                   Trecho de “Na Floresta do Alheamento
                                                                       Bernardo Soares

Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa) é um caminhante de si mesmo, percorre a sua vida assistindo com a inteligência do olhar, mas alheio ao sentir emocionado. Em Bernardo Soares, Pessoa revela a sua faceta itinerante pela vida, tão estranho de si como dos outros, desdobrando-se entre determinantes psicossomáticas que o obrigam a continuar a viver o dia-a-dia e a acuidade da sua inteligência especifica e particularmente cerebral, tornando-se um espectador de si e do mundo, como se fosse um espelho que reflete, simultaneamente, o seu eu para os outros e o mundo. No Livro do Desassossego, Pessoa afirma a sua falsa identidade e abstrai-se dos sentimentos, reconhecendo, paradoxalmente, a sua natureza paroxisticamente romântica. Ele próprio escreve que não quer sentir e amar porque sabe de antemão a decepção que o espera, consciente de não poder possuir, mas só assistir, num mundo em que a distância entre o seu eu intrínseco e o seu eu exterior é a mesma da que o separa da realidade envolvente. Através de Bernardo Soares, percebe-se claramente a estranheza de si inerente ao universo de Pessoa.

Sobre o Autor


"Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não."

Fernando Pessoa
(1888 - 1935)

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português. É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa tendo seu valor comparado ao de Camões.
O crítico literário Harold Bloom considerou-o, ao lado de Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século XX. Por ter vivido a maior parte de sua juventude na África do Sul, o inglês também possui destaque em sua vida, com Pessoa traduzindo, escrevendo, trabalhando, estudando e até pensando no idioma. Teve uma vida discreta, em que atuou no jornalismo, na publicidade, no comércio e, principalmente, na literatura, onde se desfez em várias outras personalidades conhecidos como heterônimos. A figura enigmática em que se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra, além de ser o maior autor da heteronímia.
Morre de problemas hepáticos aos 47 anos na mesma cidade onde nascera, tendo sua última frase escrita na língua inglesa: "I know not what tomorrow will bring...".